Um ano depois, as veias ainda abertas do 29 de abril

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Concentração do ato aconteceu na Praça Santos Andrade

Concentração do ato aconteceu na Praça Santos Andrade

“Naquele dia, eu senti ódio, coisa que não costumo sentir, de verdade. Eu tive medo, mas o ódio foi mais forte. Como estávamos juntos, eu me sentia forte para enfrentar qualquer polícia, mas ao mesmo tempo, tinha medo de ser machucada. Era uma mistura, uma coisa que até hoje eu não sei explicar. Uma bala de borracha me acertou na perna, mas o ódio era tão grande que eu não senti. Eu respirei muito gás [lacrimogênio]. Da primeira vez, me escorei em uma árvore, achei que ia cair. Depois, parece que eu não sentia mais. Eu não consigo esquecer aquele dia, mas eu queria esquecer.”

O depoimento é de Marlene Valle, professora da rede estadual de ensino do Paraná há 19 anos. Exatamente há um ano, ela estava na Praça Nossa Senhora de Salete, no Centro Cívico, quando a Tropa de Choque da Polícia Militar usou balas de borracha, gás lacrimogênio, jatos d’água, gás de pimenta e bombas de efeito moral numa operação que ficou conhecida como a “batalha do Centro Cívico” e deixou mais de 200 feridos. À época, professores e demais servidores do Estado tentavam impedir que a Assembleia Legislativa votasse um projeto de lei que permitia ao Executivo usar o dinheiro do Paraprevidência, uma espécie de poupança dos servidores para garantir aposentadorias futuras, para cobrir rombos no orçamento.

Nesta sexta-feira, 29 abril, Marlene Valle voltou à Praça Nossa Senhora de Salete, no ato promovido pela APP-Sindicato, que representa os professores da rede estadual, para lembrar o aniversário de um ano da “batalha”.

“Em um momento, eu estava sozinha, porque me perdi de meus amigos no meio da confusão”, continuou ela. “Peguei a tampa do carrinho de um vendedor de milho para me proteger. Vinha bala daqui, dali, de todo lado. E a gente estava lutando por uma coisa que a gente já tinha. Era como se alguém entrasse na sua casa com uma arma e roubasse algo de você.”

“O nosso compromisso hoje, aqui, é moral. Estamos enfrentando uma tirania”, definiu ela.

“Um cenário de guerra”
“Eu não sei se eu quero falar com você”, hesitou Rosa Maria Gomes Pacheco, professora há 30 anos, ao ser abordada pela reportagem do Sinditest-PR. “Por quê?”, foi a réplica. “Ontem [quinta-feira, 28] eu chorei muito. Na minha escola, os alunos fizeram uma homenagem, passaram vídeos daquele dia”, contou. “Eu desmontei.”

No dia 29 de abril de 2015, Rosa Maria diz ter visto bombas de gás lacrimogênio serem atiradas dos prédios nos arredores da Praça Nossa Senhora de Salete e dos helicópteros que sobrevoavam o local. “Isso instalou um cenário de guerra, mesmo. Muita gritaria, muita gente desesperada”, lembra. “Mas a tortura mesmo foi a Tropa de Choque. Aqueles jatos d’água intensificam o efeito do gás [lacrimogênio]. Aquilo queima a pele.”

Gregória Lopes, funcionária de escola, é uma senhora de mais de 50 anos. No dia 29 de abril de 2015, precisou ser levada a uma ambulância em uma cadeira de rodas. “Foi horrível”, conta, quase murmurando. “Deus me livre passar por isso de novo. Muita gente foi machucada, agredida quando defendia o que era justo.”

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Um ano depois
O ato desta sexta-feira, 29, começou na Praça Santos Andrade, passou pela Praça Tiradentes (onde professores se uniram a demais funcionários públicos estaduais e a movimentos como MST e MAB [Movimento dos Atingidos por Barragens]) e rumou para a Praça Nossa Senhora de Salete, onde estão localizadas as sedes do Executivo, Legislativo e Judiciário estaduais.

De acordo com os organizadores, a passeata reuniu 25 mil pessoas. Ela tomou as duas pistas centrais da Avenida Cândido de Abril e, quando a vanguarda da marcha se encontrava à altura da sede do Banco Central, ainda era possível avistar manifestantes nas proximidades da Praça Tiradentes, ocupando uma extensão de mais ou menos um quilômetro.

Em várias ocasiões, a organização ressaltou que a manifestação não tinha caráter partidário, apesar de a atual direção da APP-Sindicato ser ligada ao PT. Em um certo momento, um grupo tentou estender duas faixas no meio da passeata. Elas traziam as fotos de Dilma e Lula. A primeira dizia: “Impeachment é golpe!”. A segunda: “Lula, guerreiro do povo brasileiro”. Um pequeno tumulto foi gerado, houve empurra-empurra, gritaria e as faixas foram retiradas da marcha, à força. “É gente paga para tumultuar”, disse Luiz Romeiro Piva, professor da rede estadual e e ex-candidato a senador pelo PSOL nas eleições de 20014.

Logo, veio um aviso do caminhão de som: “Qualquer faixa que apareça defendendo político, arranquem e tragam aqui para o caminhão. O nosso ato é pela educação. Fora fascistas!”.

Rodrigo Tomazini, funcionário de escola pública e militante do PSTU, acha que nesse caso a direção da APP foi “atropelada pela base”. “Eles queriam fazer um ato também de apoio ao governo federal, mas não conseguiram. A base ameaçou: ‘Se isso acontecer, vamos paralisar as escolas, mas não vamos para a manifestação’. Porque a base não são só eles, o PT. Tem a gente, do PSTU, que defendo o ‘fora todos’, e também tem os ‘coxinhas’, que querem o impeachment. Eles queriam, mas não conseguiram.”

Bernardo Pilotto, da diretoria do Sinditest-PR, acompanhou o ato durante todo o dia. “Foi muito positivo. Mostrou força, e que a lembrança do massacre ainda está viva”, avaliou. “No carro de som, houve algumas falas sobre o cenário nacional, mas a maioria foi sobre o que está acontecendo localmente mesmo. Não acho que tenha sido um ato pró-governo [federal].”

Sandoval Matheus,
Assessoria de Comunicação do Sinditest-PR.

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