Em dez meses, vice-reitor da UFPR faltou 29 dias ao trabalho no HC

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Texto publicado originalmente na edição de junho do Jornal do Sinditest.

 

 

 

 

 

 

 

 

Em foto do dia 20 de junho, Mulinari aparece ao lado do retitor Zaki Akel e do agora ministro do STF Edson Fachin – no mesmo horário em que deveria estar no HC.

A Operação São Lucas, deflagrada no dia 21 de maio pela Polícia Federal, e que indiciou dez médicos por receberem sem trabalhar no Hospital de Clínicas da UFPR, não surpreendeu os servidores do hospital. De acordo com as denúncias que chegaram posteriormente ao Sinditest, não cumprir a jornada de trabalho é prática corriqueira no HC. Em entrevista ao RIC Notícias, no dia 02 de junho, uma servidora, que pediu para não ser identificada, garantiu: “São inúmeros os médicos que não aparecem. Outros, que aparecem eventualmente”. A própria PF admite que os dez casos revelados em maio correspondem aos mais graves apurados, mas que de agora em diante as investigações devem ser ampliadas, a fim de comprovar outros indícios.

O vice-reitor, Rogério Andrade Mulinari, aparece nas escalas do HC. Os dados levantados demonstram que ele tem excesso e incompatibilidade de jornadas. Mulinari mantém duplo vínculo com a UFPR, de acordo com informações que constam no Portal da Transparência do governo federal: como professor do Departamento de Clínica Médica e como médico do HC, no setor de Nefrologia, em regimes de 40 e 20 horas semanais, respectivamente. O cargo de vice-reitor o libera das funções de professor, mas não das de médico, conforme atesta o próprio Portal da Transparência. Nele, o vínculo de Mulinari como professor foi alterado no ano de 2009, quando assumiu a vice-reitoria. A última alteração do vínculo como médio, no entanto, é de 2001. Não consta que ele tenha pedido licença ou afastamento do cargo.

De acordo com as escalas de trabalho publicadas no próprio site do HC, Mulinari deveria estar no hospital, diariamente, se segunda a sexta-feira, das 08 às 12 horas. As escalas são publicadas desde agosto de 2014, por força da Lei de Acesso à Informação. O Sinditest cruzou as informações das escalas com as atas das reuniões dos conselhos universitários e com notícias do site da UFPR, em eventos que aconteceram pela manhã, e concluiu que em pelo menos 29 ocasiões o vice-reitor não poderia estar no Hospital de Clínicas. Ou seja, em pouco mais de dez meses, Mulinari faltou pelo menos um mês inteiro ao trabalho.

O Portal da Transparência diz que atualmente o vice-reitor recebe pouco mais de R$ 23 mil, brutos, pelos dois vínculos que mantém com a UFPR.

Na segunda semana de junho, por exemplo, Mulinari faltou pelo menos dois dias: na quinta-feira, 11, presidiu a reunião do Conselho Universitário; na sexta, 12, esteve ao lado do reitor Zaki Akel Sobrinho e do agora ministro do STF Luiz Edson Fachin, que concedeu coletiva de imprensa. No texto publicado no Portal da UFPR, a única citação a Mulinari é a de que ele esteve presente na coletiva. Ele também aparece em uma foto, ao lado de Akel e Fachin.

Das 14 vezes em que Mulinari aparece no site de notícias da UFPR no mesmo horário em que deveria estar no HC, a maioria é em eventos ou reuniões sem propósitos específicos – no jargão do cerimonial, as chamadas “visitas de cortesia”, encontros em que ocorrem a troca de cumprimentos e eventualmente de presentes, mas sem uma pauta específica em discussão. Um exemplo: na manhã do dia 17 de setembro de 2014, Mulinari recebeu representantes de um consórcio de nove universidades canadenses. A passagem mais esclarecedora do texto publicado no Portal da UFPR diz: “Durante o encontro, representantes da Universidade de Alberta (Edmonton, Canadá) falaram sobre a intenção de fazer colaborações que beneficiem as duas universidades”. Aparentemente, nenhuma pauta estava em discussão, apenas um protocolo de intenções, que talvez pudesse ser comunicado por telefone.

Em outra ocasião, em 05 de agosto de 2014, Mulinari aparece pela manhã em uma foto junto com o reitor Zaki Akel, durante as comemorações dos 53 anos do HC. No dia 02 de fevereiro de 2015, o vice-reitor aparece em uma imagem observando o descerramento da placa de inauguração das novas instalações do setor de Ciências Jurídicas – no mesmo momento em que deveria estar clinicando.

Nos encontros dos conselhos universitários, Mulinari se faz presente, na maioria das vezes, mesmo quando Zaki Akel preside a reunião plenária. A presença de ambos é desnecessária, já que pelo regimento Mulinari é o suplente do reitor.

O Sinditest tentou obter a agenda semanal do vice-reitor, mas, segundo servidores, nos últimos meses ela tem circulado apenas em um grupo bastante restrito, de confiança da reitoria. Nem mesmo a Assessoria de Comunicação da Universidade tem acesso pleno ao documento.

Isso contraria a Lei 12.813/13, que dispõe sobre o conflito de interesses em cargos ou empregos do Executivo Federal. Segundo a lei, funcionários públicos de alto nível devem publicar, diariamente, na internet, suas agendas. Isso também vale para as autarquias, caso das universidades federais.

Fora da universidade
Apesar de cumprir, em teoria, 60 horas dentro da UFPR, como professor e médico do HC, Rogério Mulinari mantém vínculos com pelo menos três clínicas particulares fora dela. No Centro Especializado da Pele (Cepelle), consulta diariamente, a partir das 17h30, conforme confirmou para o Sinditest uma secretária, via telefone.

Com uma jornada de trabalho de quatro horas diárias no HC, para cumprir as 40 horas semanais como vice-reitor, Mulinari precisaria permanecer na reitoria ao menos uma parte da noite.

Em outros dois hospitais, o Hospital Nossa Senhora das Graças e o Instituto do Rim do Paraná, Mulinari não atende, mas faz parte do corpo clínico. Também de acordo com contato telefônico, ele assiste a pacientes já internados.

Sandoval Matheus
Assessoria de Comunicação do Sinditest

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