Dividir para dominar: assista à íntegra da mesa sobre opressões promovida pela greve

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Celso Daniel: “Tem uma coisa que nos junta, não importa se gay, hétero, homem, mulher, negro ou branco: todo dia a gente precisa levantar cedo e ir trabalhar”.

As opressões, os preconceitos e as fobias sociais são instrumentos utilizados pelo sistema capitalista para dividir a classe trabalhadora e dessa forma explorá-la com mais facilidade. Essa é a conclusão da mesa de combate às opressões, organizada na manhã de sexta-feira, 14, no RU Central, pelo comando local de greve. A discussão fez parte do calendário de atividades formativas da paralisação.

Abaixo, assista na íntegra à mesa sobre opressões promovida pelo Sinditest-PR.

“Tem uma coisa que nos junta, não importa se gay, hétero, homem, mulher, negro ou branco: todo dia a gente precisa levantar cedo e ir trabalhar”, esclareceu Carlos Daniel, do setorial LGBT da central sindical CSP-Conlutas. “Nós só vamos nos libertar do machismo, do racismo, da LGBTfobia quando libertarmos a classe trabalhadora de um sistema que nos explora e nos oprime, um sistema que faz com que as nossas diferenças, que são muito menores do que as nossas semelhanças, fiquem mais afloradas.”

Outra conclusão da mesa é de que setores já discriminados na sociedade, como mulheres, negros e LGBTs, devem ser os mais afetados pela atual crise econômica e o consequente ajuste fiscal do Governo Dilma. “Na crise, se aproveita para aumentar o padrão de exploração sobre o conjunto dos trabalhadores, mas alguns sentem mais”, afirmou Silvia Ferraro, do Movimento Mulheres em Luta (MML).

As mulheres, segundo ela, estão sendo severamente afetadas pelos cortes no orçamento promovidos pelo Governo Federal, já que são responsáveis, por exemplo, por 90% dos contratos de programas como o ‘Minha Casa, Minha Vida’. “Elas também são a maioria dos usuários do SUS. Não só porque se cuidam mais, vão mais ao médico, mas porque são elas que levam os filhos pequenos, os pais idosos.”

Silvia também citou o que chama de ‘machismo invisível’. “Aquele machismo que ninguém vê, mas a mulher sente”, definiu. No arcabouço do machismo invisível, Silvia coloca a divisão de tarefas, na qual as mulheres ficam responsáveis por atividades mais organizativas, enquanto os homens, vistos como mais capazes, ficam com os trabalhos intelectuais. “Por isso, é tão difícil trazer as mulheres para a luta”, explicou. “Os sindicatos são espaços historicamente machistas, porque a política é vista como um espaço masculino.”

A mesa foi unânime ao fazer duras críticas ao Governo Dilma. “Quando ela vetou o kit anti-homofobia, ela chancelou, com o carimbo do governo, todos os assassinatos e estupros que acontecem nas escolas”, acusou Carlos Daniel. E disse mais: “Vocês sabiam que eu, que sou gay, não posso doar sangue. Segundo o Ministério da Saúde, eu faço parte do grupo de risco. Meu sangue é um sangue-lixo. E bastava uma normativa do governo do PT para acabar com isso.”

Haitianos
Ao tocar na questão dos negros no Brasil, a palestrante Martina Gomes, do movimento Quilombo Raça e Classe, lembrou os termos da assinatura da Lei Áurea e fez um link histórico com a questão dos haitianos que hoje imigram para o Brasil. “O que os senhores temiam, na época, era que este país se transformasse no Haiti, que fez a primeira revolução negra do mundo”, contou.

Hoje, no entanto, os cerca de 60 mil imigrantes do país caribenho que estão no Brasil sofrem preconceito diário, inclusive com relatos de violência física. “No Brasil, a questão negra é invisível, porque existe uma ideia de que aqui é o país da harmonia.”

Parte da responsabilidade pela imigração em massa, de acordo com Martina, é do governo brasileiro e da “missão de paz” iniciada em 2004. “O Brasil ajudou a manter o caos, para que as grandes multinacionais pudessem ir para o Haiti e explorar ainda mais o país.”

Pouco depois, em uma intervenção, o diretor do Sinditest-PR Márcio Palmares voltou ao tema. “O fascismo usa o racismo e a xenofobia como combustíveis. E essa centelha está surgindo agora no nosso país”, alegou.

Depoimento
No fim das palestras, a diretora do Sinditest-PR Carmen Luiza Moreira, que conduzia a mesa, deu um depoimento emocionado. “Não são só os gays que entram dentro do armário. As mulheres também, com medo de falar. Imaginem uma mulher negra”, pontuou. “Quando eu entrei na universidade, eu era uma trabalhadora terceirizada, mulher, negra. Hoje eu sou mulher, negra e diretora do sindicato.”

Carmen também reclamou de uma espécie de racismo camuflado, que acontece quando as pessoas parecem considerar a palavra “negro” uma ofensa. “Eu canso de ouvir que não sou negra, sou jambo. Que não sou negra, sou morena. Isso me entristece.”

Por último, ela falou do que espera, um dia, poder fazer. “O dia em que eu vou poder abraçar um branco sem ter medo de ele ser um skinhead”, finalizou.

Assista à íntegra da mesa:

http://sinditest.provisorio.ws/?p=3580

Sandoval Matheus,
Assessoria de Comunicação do Sinditest-PR.

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