Na UTFPR, debate entre reitoráveis tem momentos ásperos

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Apesar de tranquilo na maior parte do tempo, o debate entre os três candidatos à reitoria da UTFPR, na noite de terça-feira, 18, teve momentos ásperos. As três chapas se enfrentaram por pouco mais de três horas, no auditório do campus do Curitiba da Universidade Tecnológica, e teve transmissão ao vivo, pela internet, para os outros 13 campi do interior.

Um dos pontos mais polêmicos foi justamente uma das pautas mais caras aos técnicos administrativos: a jornada de 30 horas. Ao responder essa questão, o candidato da situação e atual vice-reitor, Luiz Alberto Pilatti, reivindicou para si a implantação da jornada flexibilizada dentro da UTFPR, quatro anos atrás, embora ela ainda não se estenda a todos os servidores da universidade (estima-se que atualmente não mais do que 50% usufruam do direito a ela). “Fizemos tudo dentro da lei”, garantiu. Apesar disso, Pilatti alegou que hoje as 30 horas estão sendo questionadas por órgãos reguladores, sem especificar quais são os questionamentos.

“Espero que nenhum candidato diga que vai dar as 30 horas para todos, porque daí a CGU [Controladoria-Geral da União] vai vir aqui e retirar o direito dos trabalhadores”, provocou.

Marcos Schiefler Filho, da oposição, acusou Pilatti de ter “sacrificado” os servidores à época da aprovação da jornada flexibilizada ao decidir implantá-la por setor, já que isso impossibilitaria que setores com um só servidor fizessem o chamado turno contínuo de 12 horas.

Schiefler também reclamou para si a iniciativa das 30 horas dentro da UTFPR. “Fomos nós que em 2012 firmamos isso primeiro como proposta de campanha. A chapa Cantarelli-Pilatti veio na esteira”, denunciou. Schiefler também declarou ter incorporado a proposta das 30 horas após receber estudos do vice-reitor da UFPR, Rogério Mulinari.

Contrariando Pilatti, Nanci Stancki da Luz foi a única a defender abertamente a institucionalização das 30 horas. “Isso não pode ficar por conta de cada campi ou de setor. Tem que ser uma política da universidade”. Quanto ao déficit de servidores da instituição, usado como argumento contrário à flexibilização, a candidata foi taxativa: “Isso não é só uma questão de governo, falta vontade política da reitoria para brigar”.

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Luiz Alberto Pilatti e Vanessa Ishikawa Rasoto, candidatos a reitor e vice-reitora pela situação.

Democracia na Universidade
Em uma questão enviada pelos discentes aos candidatos, os estudantes quiseram saber quais as propostas dos aspirantes à reitoria para aumentar a participação estudantil nos espaços de decisão.

Pilatti, candidato da situação, passou a enumerar o que considera os bons resultados alcançados pela UTFPR em exames como o Enem (alunos do ensino técnico) e em rankings nacionais. Logo após, recebeu uma alfinetada do candidato a vice da chapa da professora  Nanci da Luz, Volmir Sabbi: “A questão estava relacionada à participação dos alunos, não é isso? Então, responderei a essa questão”, ironizou. Volmir considera um erro o que acontece hoje, quando a universidade pública espelha o modelo das empresas privadas. “Temos que entender os estudantes como peças centrais na construção do conhecimento. Os alunos não estão em formação. Eles são adultos. Como indivíduos, podem estar de passagem, mas como categoria, não. Temos que garantir a participação deles nos espaços deliberativos”, reivindicou.

Alegando ter confundido a pergunta, Pilatti respondeu a questão em um momento posterior, quando o tema voltou à baila. Àquela altura, Schiefler criticou o fato de, há dez anos, as cadeiras destinadas aos discentes no Conselho Universitário (Couni) não estarem ocupadas, “por falta de empenho não só da atual gestão, mas do mesmo grupo político que está na reitoria há anos”. Caso eleito, ele prometeu que as cadeiras serão ocupadas imediatamente. Disse ainda que criará em cada campus da UTFPR conselhos deliberativos com participação paritária e organizará para os discentes espaços físicos onde possam exercer suas atividades políticas equipados com “computadores e ar-condicionado”.

“O que se faz aqui, segue o legal”, rebateu Pilatti. “Infelizmente os alunos ainda não conseguiram se organizar para tomarem seus assentos no Conselho. Hoje, um aluno dessa instituição custa aos cofres públicos R$ 25 mil por mês. Combater a evasão é uma de nossas preocupações e uma maneira de fazer isso é garantir a participação dos estudantes nos espaços de discussão.”

O vice da chapa da reitorável Nanci, Volmir Sabbi, subiu o tom e contestou a alegação de que as cadeiras dos discentes no Couni estão vazias por falta de organização dos estudantes: “Na verdade, o que acontece é que a gestão impõe dificuldades burocráticas a eles. Exige documentos que não exige de outros segmentos”.

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Volmir Sabbi (vice) e Nanci Stancki da Luz, candidata de oposição à reitoria.

“Utilitarismo de esquerda”
No bloco das perguntas entre os candidatos, as chapas encabeçadas por Luiz Alberto Pilatti e Nanci Stancki da Luz deram a impressão de que entrariam em um acirrado debate sobre a função de uma universidade tecnológica. Pilatti começou com uma provocação. Para ele, a função de uma instituição como a UTFPR é estar próxima das empresas, em parceria com elas, produzindo “tecnologia para o setor produtivo”. Antes de passar a palavra para Nanci, ele adiantou que a visão a oposicionista seria divergente, e desafiou: um “utilitarismo de esquerda”.

“Os empresários não são as únicas pessoas que compõem a sociedade”, rebateu a candidata. “Há também projetos sociais, movimentos sociais, economia solidária, gente que não pode pagar por projetos, mas que mesmo assim paga os impostos que mantém essa universidade. Também temos que investir em inovação. Não podemos apenas prestar serviços para empresas”, disse ela.

“Mas a senhora vai apoiar a aproximação da UTFPR com as empresas, talvez a melhor forma de financiamento que temos hoje?”, insistiu Pilatti.

“Eu vou apoiar parcerias. Até mesmo com pequenas empresas. Mas o nosso papel não o de ficar subalternos às empresas. Nos aproximarmos dos movimentos sociais, por exemplo, não exclui isso”, concluiu a candidata.

Experiência de gestão

A candidata Nanci Stancki da Luz teve sua experiência como gestora questionada por Marcos Schiefler. De acordo com ele, o fato de a candidata nunca ter ocupado um cargo de gestão poderia prejudicar seu desempenho frente à reitoria. Nanci argumentou dizendo que já desempenhou funções no Conselho Universitário e na presidência do Sindicato dos Docentes. “O que você está dizendo é que só a experiência na reitoria, naquele espaço, é válida. É exatamente esse tipo de mentalidade que permite que o poder se perpetue por décadas e décadas. Carimbar e assinar papel não é nada que não se aprenda”, respondeu.

“A experiência executiva é o que faz o diferencial do gestor”, considerou Schiefler. “Você enfrenta falta de recursos, gestão de pessoas, conciliação de interesses diversos. Não é só carimbar e assinar papel”, argumentou o reitorável.

Nanci ainda questionou Schiefler sobre seu material de campanha, no qual ele se coloca como “candidato independente”. “O senhor já fez parte da atual administração, como diretor-geral do campus Curitiba”, lembrou ela.

“Ter sido diretor-geral do campus Curitiba não me coloca imediatamente no grupo da reitoria”, se defendeu o candidato. “Também muita coisa boa foi feita por esse grupo, não podemos esquecer disso. Mas a questão de eu já ter trabalhado com um grupo não me obriga a concordar pra sempre com ele.”

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Jean-Marc Lafay (vice) e Marcos Schiefler Filho, também candidatos de oposição

Proposta ou projeto de poder?
Luiz Alberto Pilatti questionou Schiefler sobre seu real projeto para a UTFPR. “Para mim, não ficou claro. É muito simplista”, criticou.

“O nosso projeto é um projeto de quatro anos. É dar autonomia para os campi, descentralizar, para que os campi possam resolver seus problemas, porque hoje existe um abismo de um lugar para outro. Queremos dividir o poder da reitoria”, explicou. “Temos um projeto de quatro anos. Quando o senhor [Pilatti] chega aqui e apresenta um projeto de vinte anos, parece muito menos uma proposta e muito mais um projeto de poder”, disparou.

“A verdade é uma só”, rebateu Pilatti. “Não tem dinheiro sobrando, não tem mágica com vaga, não tem mágica com funções.”

“Nós vamos investir em TI [Tecnologia da Informação]”, informou Schiefler. “Vamos fazer reuniões por teleconferência. Isso vai poupar recursos. Milhões gastos em deslocamentos e em diárias.”

Serviço
As eleições na UTFPR acontecem no próximo dia 27 de abril.
Chapa 1 (oposição): Marcos Schiefler Filho e Jean-Marc Lafay.
Chapa 2 (oposição): Nanci Stancki da Luz e Volmir Sabbi.
Chapa 3 (situação): Luiz Alberto Pilatti e Vanessa Ishikawa Rasoto.

Sandoval Matheus,
Assessoria de Comunicação Social do Sinditest-PR.

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